Sambaqui: o que é, quem construiu e por que esses sítios contam a história do Brasil
Se você já caminhou perto de lagoas costeiras, manguezais ou praias mais antigas, existe uma chance real de ter passado ao lado de um sambaqui sem perceber. Muitos ficam cobertos por vegetação e parecem apenas um “morro” fora do lugar. Só que, por dentro, eles são um arquivo impressionante de ocupação humana no Brasil antes da chegada europeia.
Sambaqui é um tipo de sítio arqueológico construído, ao longo de séculos, por populações indígenas pescadoras, coletoras e caçadoras que viveram em ambientes costeiros e estuarinos. Em termos simples, são montes formados por camadas de conchas misturadas a sedimentos, restos de alimentação, marcas de fogueira, ferramentas e, em muitos casos, sepultamentos humanos.

A própria palavra ajuda a entender o básico. Segundo explicações usadas pelo IPHAN, “sambaqui” vem do tupi, com tãba associada a conchas e ki a amontoado, ou seja, um amontoado de conchas.
Onde existem sambaquis e por que eles aparecem ali
Os sambaquis estão ligados a lugares onde a comida era abundante o ano inteiro: estuários, lagunas, baías e desembocaduras de rios, ambientes ricos em peixes, moluscos e crustáceos. Essa disponibilidade contínua permitiu que grupos humanos ocupassem pontos estratégicos por longos períodos e, com o tempo, acumulassem material em camadas que viraram verdadeiros monumentos.
Muita gente associa sambaqui apenas ao Sul e ao Sudeste porque Santa Catarina, por exemplo, tem altíssima concentração de sítios e alguns dos maiores montes já registrados.
Ao mesmo tempo, há sambaquis no Norte e no Nordeste também, com destaque para o Maranhão, onde pesquisas do IPHAN citam forte ocorrência em áreas como a Ilha de São Luís, o Golfão Maranhense e o litoral oeste.
Eles são “lixo” acumulado ou construção planejada?
Essa é uma das perguntas mais importantes e a resposta hoje é mais sofisticada do que parece. Em alguns casos, o sambaqui pode incluir áreas de moradia e descarte cotidiano, com restos alimentares e ferramentas. Em outros, há evidências claras de uso funerário e cerimonial, com sepultamentos e objetos associados. O próprio IPHAN descreve sambaquis como sítios que podem ter funções variadas, incluindo marcadores territoriais, moradia e locais de sepultamento e cerimônias.
O que isso muda na prática? Muda tudo, porque mostra que esses montes não são “acidentes” arqueológicos. Em muitos contextos, eles foram construídos intencionalmente e se tornaram pontos centrais na paisagem, com significado social para quem viveu ali.
O que a arqueologia encontra dentro de um sambaqui
O conteúdo de um sambaqui costuma misturar materiais de vida diária e vestígios de longo prazo. É comum encontrar conchas, ossos de peixes e outros animais, estruturas de combustão, artefatos de pedra e osso, adornos e sepultamentos.

Em parte do litoral centro meridional, há um conjunto de objetos que chama atenção pelo refinamento: os zoólitos, esculturas em pedra com formas de animais, muitas vezes peixes e aves marinhas. O Museu Nacional destaca esses objetos como produção cerimonial elaborada por grupos associados aos sambaquis.

Esse tipo de evidência é um bom lembrete de que “complexidade” não aparece só em cerâmica ou metal. Ela pode aparecer na forma como um grupo organiza sua paisagem, seus ritos e sua produção material.
Tamanho e tempo: quão antigos são os sambaquis?
Alguns sambaquis são pequenos. Outros dominam a paisagem. Em Santa Catarina há registros de montes que chegam a dezenas de metros de altura, e o Museu Nacional cita casos que alcançam cerca de 35 metros.
O IPHAN também menciona que alguns sambaquis podem chegar a aproximadamente 40 metros.
Sobre idade, os números variam conforme a região e o sítio. Há pesquisas que descrevem sambaquis construídos ao longo de grande parte da costa brasileira entre cerca de 8.000 e 600 anos atrás.
Em um recorte do Maranhão, o IPHAN aponta ocupação com pelo menos 6.000 anos em áreas como a Ilha de São Luís.
O ponto principal é: estamos falando de uma história brasileira muito mais antiga do que a maioria das pessoas imagina quando pensa em “passado do país”.
Alguns dos maiores e mais conhecidos sítios de sambaqui no Brasil
Sem transformar o texto numa lista de lugares, vale citar alguns exemplos grandes e bem estudados, porque eles ajudam a materializar o tema.
No litoral sul de Santa Catarina, o sambaqui de Cabeçuda, em Laguna, é um dos sítios clássicos da arqueologia brasileira. Um artigo recente descreve que ele já teve mais de 20 metros de altura e foi pesquisado desde meados do século XX, com centenas de sepultamentos e muitos artefatos associados.
Na mesma faixa costeira, o Jabuticabeira II, em Jaguaruna, aparece com frequência em pesquisas bioarqueológicas e de modo de vida, sendo um dos sambaquis mais estudados do país. Estudos com marcadores ósseos e dados arqueológicos discutem dieta, uso intenso de recursos marinhos e padrões de saúde desses grupos.
Fora do Sul, o estado do Rio de Janeiro tem sítios relevantes como o sambaqui de Camboinhas, em Niterói, citado pelo IPHAN como tendo mais de sete mil anos.
E para ampliar a ideia de que sambaqui não é apenas “morro de concha na praia”, existe o caso de Monte Castelo, no sudoeste amazônico, descrito em trabalhos acadêmicos como um shell mound e uma “ilha florestal” artificial, com uma das sequências mais longas e contínuas de ocupação humana na bacia amazônica.
O que esses povos nos dizem sobre o Brasil antigo?
Quando a gente fala em “história do Brasil”, é comum o imaginário começar no litoral colonial. Sambaquis puxam a linha do tempo para trás e mostram que havia sociedades com conhecimento fino de ambientes costeiros, escolhas de assentamento estratégicas e, em muitos casos, práticas funerárias estruturadas.
Eles também derrubam uma simplificação comum: a ideia de que o Brasil pré colonial era “vazio” ou “parado”. Não era. Havia ocupações persistentes, redes de lugares e paisagens construídas, e isso aparece tanto em grandes montes costeiros quanto em sítios amazônicos de longa duração.
O que ainda é debate?
Mesmo com décadas de pesquisa, sambaquis ainda geram discussão acadêmica. Em muitos sítios, a grande pergunta é como combinar as funções: em que medida eles são locais de habitação, descarte, marcador territorial e monumento funerário ao mesmo tempo. Outra questão é o que aconteceu com essas populações ao longo do tempo, já que em várias regiões os sambaquis deixam de ser construídos e o padrão de assentamento muda.
Aqui, o mais honesto é dizer que não existe uma explicação única. Pesquisas consideram mudanças ambientais costeiras, transformações na disponibilidade de recursos e interações culturais ao longo do tempo, com respostas diferentes conforme a região e o período.
Por que isso importa hoje?
Sambaquis são patrimônio arqueológico protegido por lei e, ao mesmo tempo, continuam vulneráveis a destruição e ocupação desordenada em áreas costeiras. Além do valor histórico, eles são uma forma direta de enxergar, no terreno, que o Brasil tem uma profundidade temporal enorme, construída por povos que já viviam aqui muito antes de qualquer fronteira moderna.
No fim das contas, conhecer a cultura sambaqui é entender um pedaço essencial da história do país: quem ocupou o litoral, como se relacionou com o ambiente e como deixou marcas físicas que ainda podem ser reconhecidas.
Se você quiser ver como a Barro transformou essa pesquisa cultural em peça, conheça a Camiseta Sambaqui no site.

